segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Não Deixar o Mundo Assim

Pergunta-me se quero ir agora,
Já que a aurora te disse que estou apta à partir.
Não tenho medo do que está por vir,
Mas receio o que deixarei.
São planos que ainda não completei,
Palavras, revoltas, lutas que não declamei.
Se vim à Terra para fazer só o que fiz até agora,
Não diria que perdi tempo,
Mas confessaria que gostaria de mais um lamento para abrigar.
A vida que alimentei até aqui,
Foi construída por dores que transformei em flores.
E eu te digo, Senhor, que o jardim não está completo.
Alguns botões de desamor esperam meu corpo, minha alma
E minha fome de querer transformar em concreto
O que o homem não vê, porque se acha esperto demais.
Sabe, Senhor, encontrei a paz nos meus devaneios,
Transformei-os em atos, palavras, sorrisos que fizeram diferença,
Mesmo que mínina,
Na vida de quem queria me ver.
A aurora nada sente quando vê algum doente pedindo um sorriso,
Mas em mim, Senhor Querido, sempre nasce um buraco,
E o que eu viso, é dar as mãos.
Se eu tiver que partir, que me deixe ao menos
Semear os meus sonhos no coração de quem se assemelha a mim.
Acho um pecado, Senhor, partir assim:
Deixando o mundo ainda enfermo, ainda carente de mais Querubins.

sábado, 8 de agosto de 2009

Impaciente

Impaciente.
Esperando teus braços que, mesmo pouco fortes,
Foram feitos para proteger a mim.
E assim te declamo:
Sabor de fome insaciada,
Procura desenfreada por algo que lembre teu nome.
“Se alguém some, é porque não quer aparecer”, diz-me uma voz amaldiçoada,
Mas prefiro crer que houve algum imprevisto no ato do reencontro.
Insisto em você, porque surgiu sem que eu quisesse
E me trouxe o gosto de algo que nunca mais havia provado.
Insisto em você porque há mistério nos seus olhos,
Nos seus toques, nos seus lábios...
E o que eu quero é te desvendar devagar, por partes,
E logo devorar a tua alma.
Já disse que não tenho calma?
Minhas mãos estão molhadas e gritam teu corpo a todo instante.
Não cometa o crime de fazer da tua matéria, algo distante,
De deixar com fome a carne errante que só deseja sentir o gosto da liberdade:
Propriedade particular da sua profana existência.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Paz é Guerra

Eu falo, falo, falo e nada!
Por que não me calo?
O calo nas cordas não me abala.
Por que eu grito?
Os ouvidos estão poluídos
De corrupção, de impecílios.
Meus cílios permanentemente antentos,
Querem atentar aos indevidos.
Porque não me alio?
Aliada, ouvirão o rangido do meu partido.
Por que ninguém entende
Que não estou aqui inutilmente
E quero rapidamente a solução dos conflitos?
Por que eu só brigo?


Digo que sou paz, mas quero a guerra.
Corro perigo!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Melodia do meio termo

Às vezes eu me perco
Nesse meio termo: realidade e o que sonho.
O vizinho distante já foi meu antigo amor,
O grande amor é apenas um estranho.
Toda noite durmo vendo estrelas no arpoador,
Todo dia passo pela avenida coberta de anjos.

Se te falo coisas que não entendes,
É porque tu brotaste em mim como flor.
Se atuo de forma surpreendente
É porque te criei independente da dor.

E assim eu continuo me perdendo...
Se encontrar, perderei quem sou.
E assim eu continuo me perdendo...
Se achar, não haverá mais vôo.
(2x)

Não me deixe acreditar no que, de fato, existe,
Se só não sou triste,
Porque vida eu sempre dou...


À tão bendita ilusão!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Passos

Eu tenho medo, confesso.
O próximo passo é também o que não darei.
Nunca sei ao certo para aonde ir,
Por não querer deixar nada para trás.
Não busco a escolha certa,
Mas uma vida ao menos completa de vivência.
E dessa existência, não experimentarei a metade.
Porque não posso ser duas, três, mil?
Quero a infinidade do possível!
Dar todos os passos, amarrar todos os laços,
Ter tempo para amar o não cabível.
Toda essa monotonia chamada única escolha
Faz do abismo um buraco raso,
Do impossível um desejo raro,
Faz da realidade uma concretude desinteressante.
Eu quero tudo que meu sonho me impõe.
Tudo que o desconhecido propõe.
Eu quero ser o que não pensei
E não ter motivo pra temer,
por poder dar todos os passos que meus pés gritam.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Menino Bonito

Certo dia, movida pela embriaguez, deparei-me com um menino... Lindo! (Poderia ser mais, se não fosse aquele jeito de quem olha para baixo, como se não pudesse levantar a cabeça, como se alguém o mandasse se manter ali, no chão; como se ele não soubesse mais olhar para o sol, para a luz)
Perguntei o que fazia naquele lugar impróprio para alguém da sua idade. A madrugada era fria, ele estava descalço. Nada respondeu. Só olhou pra o objeto em minha mão, que continha ainda a bebida qual antes daquele momento me proporcionara uma felicidade ilusória. Não entendi. Um amigo que me acompanhava naquele dia, após beber tudo que continha em sua lata, jogou-a no chão e, feito criança atrás de doce, o menino correu atrás do tão glorioso guardador de bebidas. Perguntei se era a nova forma de brincar dos meninos de hoje em dia [eles andam um pouco diferentes dos da minha época]: colecionar latas para depois fazer sabe lá o quê.
Ele, por um raro instante, levantou a cabeça, sorriu de lado, se encheu de um rancor que gritava pelos seus olhos e poros, e disse: "Tô brincando de viver".

Desde então ando bolando alguns planos pra morrer antes de conhecer a tal vida.

Espírito

Como um espírito volta ao lar que deixou
E novamente tira todos os cômodos.

Eu já havia enfeitado a casa
[Não com cores e objetos tão bonitos
Como quando você estava,
Mas havia].

Tem o poder de destruir tudo que construo.
É avassalador nas palavras, nos gestos, nas lembranças.
Retomar a história que foi vivida
É ter certeza que igual a você, não existe.

Por isso, insiste em relembrar tudo!

Contudo, agora, não é possível voltar...
Você é espírito e só.
É apenas o que diz, é pó, e não pode ao menos segurar minhas mãos
[quais tantas vezes ensinou o que fazer].

Fui assassina desse crime que não quis cometer
Para poder me livrar da necessidade de declamar tantas vezes teu corpo.

Não volte mais aqui, feito louco, querendo destruir o que finjo ser verdade.
Não há mais necessidade do que passou.
Contaminou-me e ensinou-me tudo o que sou,
Mas o seu espírito não cabe mais em mim.

Vá, viva o seu mundo sem fim [dos mortos]
Construa mais paixões, mais ilusões, mais dores.
E me deixe aqui,
Tentando ser feliz com pseudo-amores, infilntrando-me em seus singelos poros.

Rezarei por você!

Espírito de luz,
Afaste-se de quem tem medo de cometer suicídio por um capricho,
Por um desejo imenso de novamente, feito bicho, querer te ter.